por Guilherme Moraes
O polêmico túnel da Av. Sena Madureira: a vanguarda do atraso na modernidade paulistana
São Paulo é uma cidade de contrastes históricos, onde antigas formas de transporte foram substituídas progressivamente: dos carros de boi aos bondes, depois aos ônibus e, finalmente, aos automóveis que hoje dominam suas vias. Essas mudanças refletem as disputas de poder que transformaram a metrópole em um lugar simultaneamente impressionante para quem a fotografa do alto e intimidador para quem tenta chegar na outra calçada.
A cidade passa por constantes transformações urbanas, num ciclo de “destruição criativa” que modifica sua paisagem com pontes, viadutos e arranha-céus. Termos como “plano diretor” e “zoneamento urbano” tornaram-se parte do vocabulário paulistano, enquanto a população enfrenta problemas crescentes com congestionamentos, enchentes e longos tempos de deslocamento.
Independentemente de posicionamento político, os paulistanos compartilham a insatisfação com a mobilidade urbana. As soluções implementadas nas últimas décadas mostram-se insuficientes para atender às necessidades da população. Porém, em vez de projetos que promovam eficiência nos deslocamentos, a cidade mantém padrões problemáticos de desenvolvimento urbano. Aliás, uma das poucas certezas que temos é que ninguém gosta de enfrentar congestionamentos quase infinitos para chegar a seu destino cotidiano.
Nesse contexto, a retomada da verticalização desenfreada impulsionada pela pretensão das construtoras de oferecer apartamentos modernos com múltiplas vagas de garagem, é um dos fatores que agrava os problemas de mobilidade. Essa equação leva a resultados previsíveis: a ausência de compensações viárias faz com que o tempo de espera nos semáforos aumente a cada dia.
Neste contexto, surge a polêmica obra do túnel na Avenida Sena Madureira. Apesar do objetivo declarado de melhorar a mobilidade urbana, o projeto enfrenta críticas quanto ao possível sobrepreço (orçado em R$ 531 milhões), riscos ambientais com o soterramento de nascentes e remoção de árvores centenárias. Incômodos que se tornam superlativos quando se percebe que todo esse esforço da prefeitura tem como causa evitar alguns poucos semáforos (o que resultará em não resolver ou amenizar congestionamento – jogando-os para algumas quadras adiante).
Esse polêmico projeto se conecta a outras iniciativas igualmente controversas, como o prolongamento da Marginal e a ‘revitalização’ do centro, todas marcadas por grandes investimentos públicos e questionamentos sobre seus reais benefícios.
Por fim, a reeleição do atual prefeito traz uma camada adicional de complexidade. Suas alianças político-eleitorais com setores conservadores aparenta ser uma tentativa de projeção estratégica voltada a se manter na vanguarda de “modernização” que paira no inconsciente coletivo da cidade, se afastando da velha-política. No entanto, sua gestão permanece alinhada com o modelo de crescimento urbano que, até o momento, tem priorizado grandes empreendimentos e projetos comprometidos com antigas fórmulas e visões urbanas que nos trouxeram para o atual cenário de caos cotidiano e nos fazem reféns de promessas de investimentos públicos em soluções voltadas para a mobilidade privada.
O túnel de Av. Sena Madureira faz São Paulo se apresentar como a vanguarda do atraso ao seguir um padrão de desenvolvimento urbano negacionista em matéria de mobilidade. Desta forma, a cidade paulatinamente se consolida como um grande negócio com asfaltadas fronteiras modernas e tecnológicas. Temos um enorme passado pela frente.
Sobre o autor: Guilherme Moraes é mestre em políticas públicas pela USP (PPGHDL/FFLCH), ciclista e especialista em processo penal pela Escola Paulista da Magistratura EPM/TJSP.
A sessão de artigos é publicada às segundas-feiras, com textos de colunistas convidados, são publicados tanto artigos de opinião, como literários. Seu conteudo é de total responsabilidade dos autores e pode não refletir o posicionamento do site. Encontre mais artigos publicados neste link.
