Por Gabriela Mura
Quando a influência digital passa a disputar com a orientação médica as decisões sobre a saúde dos pets, surgem novos desafios para o setor.
A forma como os tutores tomam decisões sobre a saúde de cães e gatos mudou de maneira significativa nos últimos anos. A internet deixou de ser apenas uma fonte de consulta complementar e passou a ocupar um papel central na jornada de cuidado dos pets. Hoje, antes mesmo da visita ao consultório, muitos tutores chegam munidos de informações, opiniões e recomendações encontradas em redes sociais, vídeos curtos e fóruns online.
Esse comportamento reflete uma transformação positiva. O tutor está mais atento, envolvido e interessado em compreender as melhores opções para o bem-estar do animal. Ao mesmo tempo, esse excesso de informação cria um novo desafio para a saúde animal: distinguir conteúdos confiáveis de orientações imprecisas e garantir que decisões clínicas sejam baseadas em avaliação técnica individualizada.
O Radar VET 2025, estudo conduzido pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), ajuda a dimensionar esse cenário. Segundo os médicos-veterinários ouvidos pela pesquisa, o profissional segue sendo a principal referência quando o assunto é a prescrição de vacinas e medicamentos. No entanto, quando a conversa envolve bem-estar, alimentação, suplementos ou terapias alternativas, o protagonismo passa a ser compartilhado com o ambiente digital. A busca online e as recomendações informais ganharam peso real no processo de decisão dos tutores.
Esse movimento não ocorre por acaso. O animal de estimação ocupa, cada vez mais, o lugar de membro da família. Esse vínculo emocional reforça o desejo de prolongar a vida, garantir conforto e evitar sofrimento, o que leva o tutor a buscar múltiplas fontes de informação. A pressão por respostas rápidas, aliada à lógica dos algoritmos, cria um ambiente em que opiniões ganham visibilidade independentemente de embasamento científico.
Ao mesmo tempo, a transformação digital também redesenha a atuação do médico-veterinário. O Radar VET mostra que 81% dos profissionais utilizam redes sociais para divulgar serviços e compartilhar conhecimento técnico. Entre os mais jovens, as plataformas digitais são vistas como uma extensão natural do consultório, um espaço para educação, relacionamento e construção de confiança.
Essa presença é elevada em todas as regiões do país, com destaque para o Norte, onde 80% dos veterinários publicam conteúdos relacionados à saúde dos pets. A região concentra também o maior percentual de profissionais jovens: 87% têm até 39 anos. No Sudeste, o índice de divulgação é menor, mas ainda significativo, alcançando 67%. Os dados indicam que a comunicação digital deixou de ser exceção e passou a integrar a prática profissional.
Quando bem utilizada, essa presença fortalece a autoridade do veterinário, amplia o acesso à informação de qualidade e contribui para escolhas mais seguras por parte dos tutores. O desafio está em estabelecer limites claros. A internet não substitui o diagnóstico clínico, assim como conteúdos em redes sociais não podem assumir o papel de prescrição ou orientação médica individual.
O avanço da saúde animal depende da capacidade do setor de equilibrar informação e responsabilidade. Transformar o ambiente digital em aliado passa por educação continuada, comunicação ética e valorização do conhecimento científico. Mais do que disputar espaço com a tela do celular, o veterinário tem o papel de contextualizar, orientar e traduzir a informação em cuidado efetivo.
Entre a velocidade das redes sociais e a escuta atenta do consultório, a saúde do pet depende de equilíbrio. Informação sem orientação pode confundir; orientação sem diálogo perde alcance. O caminho mais seguro está na convergência entre conhecimento científico, comunicação qualificada e a confiança construída na relação entre médicos-veterinários e tutores.
Sobre a autora: Gabriela Mura é diretora de mercado e assuntos regulatórios do Sindan – Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal.
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