Coletânea Iorubahia reúne textos raros de Pierre Verger

imagem em preto e branco de Pierre Verger ao lado de uma liderança Ioruba
Página interna do livro Iorubahia (reprodução web, foto sem crédito)

Livro será apresentado dia 16 de setembro no auditório da Biblioteca Mário de Andrade pelos pesquisadores Ângela Lühning, Angela Fileno e Tiganá Santana

Em parceria, instituto Çarê e Fundação Pierre Verger publicam ensaios escritos pelo etnógrafo entre os anos 1950 e 1980. O livro foi lançado em agosto, em evento literário em Salvador, e será apresentado dia 16 de setembro, em São Paulo. Os pesquisadores Angela Lühning, Angela Fileno e Tiganá Santana farão uma roda de conversas a respeito de Pierre Verger e estes achados no auditório da Biblioteca Mario de Andrade, na região central da cidade.

O livro Iorubahia reune doze textos de Pierre Fatumbi Verger (1902-1996), boa parte inédita em português, produzidos entre o fim dos anos 1950 e o início dos anos 1980. No período em que escreveu esses textos, Verger viveu entre Salvador e a Nigéria, pesquisou arquivos coloniais europeus e brasileiros, tornou-se doutor em estudos africanos pela Escola Prática de Altos Estudos, em Paris, foi pesquisador associado da Universidade de Ibadan e professor visitante da Universidade de Ilê-Ifé. Também percorreu cidades e vilas do território iorubá para acompanhar rituais e registrar relatos orais de babalaôs.

“Os textos reunidos em Iorubahia representam faces relevantes da trajetória multitemática e multiespacial do pesquisador Verger, que ele manteve em processo de construção constante, além da carreira do fotógrafo já consagrado”, afirma Ângela Lühning, organizadora do conteúdo.

A coletânea está organizada em três eixos temáticos. O primeiro, Aspectos históricos das relações transatlânticas, dialoga com a pesquisa que deu origem à tese de doutorado de Verger sobre o tráfico de escravizados entre o golfo do Benim e a Bahia. O segundo, Religião iorubá: fundamentos e diáspora, aborda o papel da religião dos orixás na Nigéria e no Brasil e o fenômeno do transe religioso. Já Cultura, conhecimento e oralidade iorubá reúne reflexões sobre conhecimentos transmitidos oralmente, plantas litúrgicas e o sistema de divinação Ifá.

Iorubahia surgiu a partir do processamento do acervo da editora Corrupio. Inaugurada em 1979 por um grupo de mulheres liderado pela fotógrafa Arlete Soares, a editora foi criada para editar a obra de Verger. Em quatro décadas, construiu um catálogo dedicado à presença negra na formação da cultura brasileira e às relações históricas entre o Brasil e a África. O Instituto Çarê, organização cultural sem fins lucrativos que se dedica a preservar e a fomentar manifestações culturais brasileiras de relevo adquiriu o acervo em 2003, iniciando a pesquisa destes manuscritos.

No posfácio, o pesquisador, curador e multiartista Tiganá Santana destaca a contribuição de Verger para os estudos africanos e afro-brasileiros e observa que sua obra rompe hierarquias entre o conhecimento produzido na África e na diáspora, propondo uma compreensão mais ampla das conexões culturais entre os dois lados do Atlântico. “Verger convoca que se esteja, seriamente, lá (em algum locus existencial do continente africano) e que se redimensione, por conseguinte, o que é nascer/viver cá”. escreve. “Em última análise, que se repense o ‘lá’ e o ‘cá’. Nada é simples em toda essa história; muito menos deve ser a nossa inserção nela, a nossa recepção dela.”

Pierre Fatumbi Verger (Paris, 1902 – Salvador, 1996) iniciou sua trajetória profissional nos anos 1930, tornando-se conhecido como fotógrafo viajante. Em 1946, fixou residência em Salvador, onde trabalhou inicialmente como repórter fotográfico para a revista O Cruzeiro. Mais tarde, enveredou pela pesquisa documental e de campo nas áreas de antropologia, história, conhecimentos orais e botânica, conforme seu interesse se ampliava para questões históricas e culturais, e as tradições religiosas de matriz africana. Em viagens constantes à África Ocidental, e em um período de doze anos vivendo na Nigéria, fez um mergulho pessoal na cultura iorubá, tendo sido iniciado como babalaô em 1953. Em 1966, tornou-se doutor em estudos africanos pela École Pratique des Hautes Études (EPHE), em Paris. É autor de obras referenciais para o estudo dos trânsitos culturais atlânticos e da presença iorubá na diáspora, como Orixás. Os deuses iorubás na África e no Novo Mundo e Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benim e a Bahia de Todos os Santos, dos séculos XVII a XIX.

Iorubahia _ Escritos raros sobre a cultura iorubá e as relações entre Brasil e golfo do Benim
Pierre Fatumbi Verger
Ângela Lühning (org.)
Letra da Cidade/Fundação Pierre Verger, 2026
ISBN 978-65-998062-6-1
320 páginas
À venda pelo Instituto Çarê em tps://institutocare.org.br/nucleos/livros/coletanea-reune-textos-raros-de-pierre-verger

Lançamento em São Paulo
Quarta, 16 de setembro, às 19h
Biblioteca Mário de Andrade (Auditório)
Mesa de lançamento: Ângela Lühning, Angela Fileno, Tiganá Santana e Teté Martinho (mediação).}
Entrada: Gratuita, com retirada de ingressos 1 hora antes.

A Fundação Pierre Verger é uma instituição sem fins lucrativos criada em 1988 e sediada na casa onde Pierre Verger viveu, em Engenho Velho de Brotas, Salvador. Tem como missão preservar o acervo e a memória de Verger, além de propor atividades culturais e socioeducativas para a comunidade local. Conheça mais em https://pierreverger.org

Angela Lühning começou a trabalhar com Pierre Verger em 1988, momento da criação da Fundação Pierre Verger, em Salvador, e segue vinculada à instituição, como diretora e coordenadora do Espaço Cultural Pierre Verger. Realizou diversas pesquisas sobre Verger e sua atuação, que resultaram em uma série de artigos e outras publicações. Organizou os livros Pierre Verger: repórter fotográfico (2004) e Verger-Bastide: Dimensões de uma amizade (2002), ambos publicados pela Bertrand Brasil. É professora titular aposentada da Escola de Música da UFBA, tendo atuado na área de etnomusicologia da instituição de 1990 a 2025. Suas pesquisas abordam música, memória, história e oralidade na cultura afro-brasileira, além de experiências de educação social em bairros populares de Salvador.