Artigo: A fila do osso não pode parir uma ditadura

imagem das mãos de uma pessoa, aparentemente um homem adulto, escrevendo à caneta em algumas folhas, são vists as mãos e parte dos braços com camisa de mangalonga azul clara. a mão direira escreve com a caneta e a esquerda está apoiada segurando os papéis.
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por Sebastian Levati

“Um povo que não conhece sua História está fadado a repeti-la”. A frase atribuída ao filósofo Edmund Burke permanece atual: a memória não é apenas um exercício do passado, mas um instrumento fundamental de defesa da democracia. No Brasil, revisitar a ditadura militar por meio da literatura e do jornalismo é uma prática de cidadania — e, em 2026, uma urgência política. 

Diferentemente dos livros didáticos, a literatura alcança a dimensão subjetiva da História. Ao criar personagens, afetos e conflitos, transforma estatísticas em experiências humanas. O leitor não apenas aprende sobre a repressão, a censura e o medo: ele os sente. Essa capacidade de humanizar o passado impede que a violência de Estado seja relativizada ou esquecida. 

A disputa pela memória segue aberta. Tentativas de minimizar torturas, apagar desaparecimentos e reescrever a história não são lapsos de interpretação, mas projetos políticos. Por isso, manter viva a lembrança do autoritarismo é um ato de resistência. A ficção, muitas vezes, antecipou debates que a historiografia oficial demorou a enfrentar, funcionando como espaço de denúncia e reflexão social. 

O jornalismo, por sua vez, é pilar da democracia ao fiscalizar o poder e garantir o direito à informação. Durante a ditadura instaurada em 1964, a censura impediu a divulgação de denúncias e silenciou vozes dissidentes. Hoje, embora exista maior liberdade formal, o desafio é enfrentar o negacionismo histórico e a desinformação em ambientes digitais. Quando jornalistas são atacados ou desacreditados, toda a sociedade perde. 

A memória é um campo de batalha. Quando uma sociedade escolhe esquecer, perde sua bússola ética. Literatura, jornalismo, museus e escolas são sistemas de alerta contra novas formas de autoritarismo, pois eles não permitirão que uma direita saída de filas do osso e da catação de restos tente gestar e parir uma nova ditadura, como se tentou impor ao Brasil em 8 de janeiro de 2023. Lembrar não é olhar para trás: é proteger o futuro. 

Sobre o autor: Sebastian Levati é paulistano de General Salgado, trabalhou com Engenharia Mecânica antes de se dedicar integralmente à literatura. É escritor e pesquisador independente, autor de “Cinzas de Cogumelos Azuis”, obra sobre jovens que enfrentam a repressão da ditadura militar, usando a arte, o afeto e o lirismo como formas de resistência 

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