informações enviadas pela assessoria de imprensa da agência Meraki
Escolha de um ator trans para o papel de um homem cis é um avanço na luta contra a discriminação que acontece em todos os setores, inclusive no audiovisual
O longametragem Serpente, de Diogo Hayashi, poderia ser notícia por ter sido um dos selecionados no concorrido programa de apoio do festival de cinema de Berlim, o Berlinale Talents Project Market 2025. Mas é outro fato marcante para o cinema nacional que vem sendo destacado na produção que tem data prevista de lançamento em 2028: a composição de seu elenco.
“O objetivo é que, em algum momento, isso deixe de ser notícia. Um artista trans é, antes de tudo, um artista e deveria poder disputar papéis como qualquer outro profissional.”
Danilo Rowlin, sócio-fundador da agência Meraki
Foi escolhido para um dos principais papéis do filme, o ator Kaik Okada, abrindo uma importante porta para o fim do preconceito na escalação de elenco no cinema nacional. Kaik é um homem trans e interpreta um personagem cisgênero no longa de suspense passado em uma antiga vila japonesa. A história mostra uma jovem, transformada em demônio após um assassinato brutal, condenada a uma dimensão de dor e sofrimento na própria fazenda.
Kaik Okada é um artista iniciante, ligado à Meraki, hub de agenciamento e produção de elenco, que decidiu apresentá-lo para o teste mesmo sem a solicitação de um ator trans para o papel. O ator participou do projeto TransFree voltado à ampliação da pluralidade no setor. Ainda em seu processo de cadastro, a produtora visualizou a oportunidade e o indicou para o teste, compreendendo que estava dentro das qualificações solicitadas pela direção de elenco, não limitando o pedido apenas à identidade de gênero que a personagem poderia vir ter.
Em um setor historicamente marcado por estereótipos e pela limitação de artistas trans a narrativas centradas exclusivamente em sua identidade de gênero, o caso aponta para uma possibilidade urgente, mas ainda pouco comum: a presença de atores em papéis diversos nos quais essa característica não é o eixo central da narrativa.
O episódio evidencia ainda uma lacuna histórica na indústria. “A partir de registros públicos e notícias do setor, não encontramos precedentes de um homem trans interpretando um personagem que, pela nossa leitura, apresenta indicativos de ter identidade cisgênera no cinema nacional. O audiovisual tem não apenas o poder de contar histórias, mas também de reparar silêncios históricos”, comenta Danilo Rowlin, sócio-fundador e diretor comercial da Meraki.
Os dados indicam que o problema vai além de um caso isolado. De acordo com nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicada em outubro de 2025, apenas 25% das pessoas trans estavam empregadas formalmente em 2023, taxa 6,8 pontos percentuais inferior à da população geral. O estudo também aponta que pessoas trans inseridas no mercado formal recebem, em média, 32% menos que a média nacional, diferença que persiste mesmo entre profissionais com ensino superior completo, cujo rendimento é 27,6% inferior ao de trabalhadores não trans com o mesmo nível de escolaridade.
Ao refletir sobre os desafios ainda presentes no setor, Kaik Okada aponta que a transformação passa também pela forma como pessoas trans são percebidas no ambiente profissional. “Pode parecer simples, até estranho de dizer, mas tudo começa pela nossa humanização, que está ligada ao respeito e também à possibilidade do erro. Muitas vezes somos vistos com tanta distância das pessoas cis que sentimos que precisamos nos esforçar o dobro para que algo aconteça. E não podemos errar, porque parece que a nossa participação ainda é tratada como um favor”, afirma.
“Ainda que a escalação não elimine as desigualdades do setor, indica o início de uma mudança concreta. Ao permitir que um ator trans interprete um personagem cuja identidade de gênero não é o eixo central da narrativa, o cinema nacional ensaia um deslocamento de paradigma: da representação simbólica para a integração estrutural”, conclui Danilo Rowlin.
