por Zilah Daijo
O aumento da expectativa de vida no Brasil é motivo de celebração. Afinal, viver mais é resultado dos avanços da medicina, da melhoria das condições sanitárias e do acesso cada vez maior aos serviços de saúde. Mas essa conquista traz uma pergunta que precisa ser respondida com urgência: estamos preparados para cuidar de uma população que envelhece?
A resposta passa, inevitavelmente, pelos cuidadores de pessoas idosas. Quando falamos sobre envelhecimento, é comum pensarmos em hospitais, medicamentos, consultas médicas ou aposentadoria. Raramente lembramos daqueles que tornam possível a permanência de milhares de idosos em suas próprias casas, preservando vínculos familiares, autonomia e qualidade de vida.
São os cuidadores – familiares ou profissionais – que acompanham consultas, administram medicamentos, auxiliam na alimentação, estimulam a mobilidade, observam mudanças no estado de saúde, oferecem apoio emocional e garantem que as necessidades diárias sejam atendidas com dignidade. Sem eles, o sistema de cuidado simplesmente não funciona.
No entanto, apesar da importância desse trabalho, cuidar ainda é uma atividade invisível para grande parte da sociedade. Milhões de brasileiros, principalmente a mulher, assumem diariamente o cuidado de um pai, de uma mãe, de um cônjuge ou de outro familiar idoso sem qualquer direito e proteção. Muitos deixam o mercado de trabalho, reduzem sua renda, enfrentam jornadas exaustivas e convivem com o desgaste físico e emocional provocado por uma responsabilidade que exige conhecimento, paciência e disponibilidade permanente e uma rede de apoio familiar, da sociedade e do Estado.
Outros escolhem o cuidado como profissão. Esses profissionais representam uma categoria cada vez mais necessária em um país que envelhece rapidamente. Ainda assim, enfrentam desafios relacionados à qualificação contínua, ao reconhecimento social e à valorização do trabalho que desempenham.
O resultado dessa realidade aparece dentro das casas, mas também nos serviços públicos. Um cuidador que recebe orientação consegue identificar precocemente alterações de saúde, prevenir quedas, estimular a autonomia da pessoa idosa e contribuir para o controle de doenças crônicas. Isso reduz complicações, evita internações desnecessárias e melhora significativamente a qualidade de vida.
Por outro lado, quando o cuidador permanece isolado, sem informação e sem apoio, aumenta o risco de sobrecarga física e emocional, comprometendo tanto sua saúde quanto a da pessoa assistida. Cuidar de quem cuida deixou de ser apenas um gesto de solidariedade. Tornou-se uma necessidade social.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende que os países fortaleçam políticas de cuidados de longa duração para responder ao envelhecimento populacional. Isso significa ampliar redes de apoio, investir na capacitação de cuidadores e desenvolver serviços que permitam às pessoas envelhecer com segurança e autonomia. O Brasil, no final de 2025, elabora o Plano Nacional do Cuidado, que considera o cuidado como direito e proteção do cidadão, de forma integral e integrada.
A Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social, atenta a essa nova política pública e tendo como referência a Formação Básica de Cuidadores de Pessoas Idosas e no Programa do Cuidando de quem Cuida, que vem executando há 10 anos idealizou o 1º Fórum Itinerante de Cuidadores de Pessoas Idosas: Desafios, Ação e Transformação, promovido em parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo.
O fórum pretende abrir espaço para os cuidadores terem voz, sobre os seus desafios enfrentados no cotidiano, em relação ao seu autocuidado, sua relação com familiares e o cuidando, e o seu parecer sobre a regulamentação da sua profissão/ocupação. A participação dos cuidadores é de fundamental importância para poder desconstruir conceitos antigos e construir novos, no sentido de ressignificar o ato do cuidado e implementar a nova política do cuidado. Isso significa reconhecer o cuidador como agente que possa contribuir para a melhoria da qualidade de vida da pessoa idosa e a preservação da autonomia e independência.
Preparar o país para o envelhecimento passa, necessariamente, por preparar quem cuida. Porque uma sociedade que valoriza seus cuidadores é, acima de tudo, uma sociedade que respeita seus idosos e se prepara para o futuro.
Sobre a autora: Zilah Daijo é pedagoga com especialização em Gestão de Políticas Públicas e Pós-graduanda em Envelhecimento Humano em Perspectiva Multidisciplinar e presidente da Comissão de Assistência Social da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo)
A sessão de artigos é publicada às segundas-feiras, com textos de colunistas convidados, são publicados tanto artigos de opinião, como literários. Seu conteudo é de total responsabilidade dos autores e pode não refletir o posicionamento do site. Encontre mais artigos publicados neste link.
